No dia do médico-legista e do jornalista (dia 7/04), o “esculachado” foi Harry Shibata, médico que falsificou os laudos de Herzog e Marighella

07/04/2012

Nélson Norberto

de São Paulo

Nenhuma das cerca de 200 pessoas que protestaram em frente à casa de Harry Shibata, neste sábado (07), em São Paulo, foi torturada por ele. Todos os militantes de esquerda com quem o médico legista travou contato durante a ditadura “se suicidaram, foram mortos em tiroteio ou morreram atropelados”, de acordo com laudos necroscópicos falsificados e assinados pelo próprio, com o intuito de acobertar mortes sob tortura.

(veja o vídeo)

A data escolhida para o esculacho, por ser ao mesmo tempo o dia do médico-legista e do jornalista, foi uma maneira de homenagear Vladimir Herzog, morto sob tortura, que teve o seu laudo assinado por Shibata atestando-o como suicida, mesmo sem que esse tivesse ao menos visto o seu corpo.

Mas Herzog não foi o único a ser lembrado. Cerca de 15 nomes foram lidos em frente à casa em que Shibata mora, na rua Zapara, 81, em Alto de Pinheiros, bairro de classe média alta. Entre eles, os de Carlos Marighella, Edson Neves Quaresma, Emanuel Bezerra dos Santos, Luiz Hirata e Sonia Maria de Moraes Angel Jones – a quem Shibata atestou em seu laudo “morte em tiroteio”, quando na verdade, depois de torturada, Sonia teve seus seios arrancados e foi estuprada com um cassetete.

Ao lado do inimigo

O cortejo, com uma coroa de flores à frente, começou às 14:50, percorrendo as ruas da Vila Madalena, bairro badalado de São Paulo. Com gritos de “Olê, olê, olá, Harry Shibata vai ter que pagar”; “Não esquecemos a ditadura, os assassinatos e torturas”; e “Se não há justiça, onde estiverem iremos esculachar”, participantes distribuíram panfletos para os vizinhos do médico, com a pergunta: “Você conhece ele?”.

Se os seus vizinhos ainda não o conheciam, é quase impossível que agora não saibam quem ele é. Durante a madrugada, mais de 800 cartazes com sua foto e de militantes mortos sob tortura que tiveram laudos falsificados por ele foram colados em postes no perímetro de sua casa.

“Não sabe como isso me faz feliz, ver a casa dele pichada com a palavra ‘assassino’”, disse uma das vizinhas que, ao contrário da maioria, sabia que Shibata morava ali. “Quando mudei, a ex-proprietária comentou comigo, mas só tive certeza que era verdade quando uns anos atrás vi a cara dele estampada no Jornal Nacional.”

“Mas sabe como é, apesar de ser muito solícito com todos aqui no bairro, ele é amigo dos assassinos, então, fica complicado falar, mas que eu queria muito ver a cara dele vendo tudo isso, não posso negar”, disse a vizinha, sob pedido de anonimato, já que ela própria, ironicamente, vem de uma família perseguida durante a ditadura.

Além da palavra “assassino”, escrita com tinta vermelha no muro de sua casa, a frase “Shibata, legista da ditadura”, foi pichada no meio da rua, com uma seta indicando o portão de sua casa. Apesar de a campainha ter sido tocada várias vezes, ninguém apareceu na porta. Ao fim do protesto, os manifestantes deixaram na calçada fotos de desaparecidos e mortos pela ditadura civil-militar.

Processo

Shibata, que foi diretor do Instituto Médico Legal entre 1976 e 1983, e teve seu registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Medicina, instruía os torturadores dos órgãos de repressão da ditadura a não deixar marcas de suas ações nos corpos dos torturados.

Atualmente, está sendo processado pelo Ministério Público Federal (MPF) juntamente com outras quatro autoridades da época pelo crime de ocultação de cadáver. O MPF pede que os cinco sejam condenados à perda de suas funções públicas e/ou aposentadoria.